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Pesquisa clínica em homeopatia veterinária

B. Rüdinger

E-mail: birgit.ruedinger@dhu.de

 

 

Sumário

 

Em homeopatia veterinária também há uma necessidade de experiências clínicas como meio de investigar aspectos relevantes na prática diária e de aumentar a aceitação da homeopatia na medicina veterinária. O projeto de um estudo de observação orientado para a obtenção de resultados deverá satisfazer exigências quanto à aquisição do material da fonte científica, levando em conta, ao mesmo tempo, o princípio da individualidade, em que se baseia o tratamento homeopático, e permitindo que o conceito seja respeitado sob as condições rotineiras da prática veterinária. Aqui se esboça um projeto que visa a investigar o uso da homeopatia na área da pecuária, com base em critérios de resultados.

 

Introdução

Nos últimos anos, a homeopatia também se estabeleceu na medicina veterinária. Na Alemanha, cerca de 90% dos veterinários usam medicamentos homeopáticos.

Há diversas razões para isso. Os proprietários de animais de estimação ou criados como hobby têm demonstrado um crescente interesse no tratamento homeopático para seus animais. Muitos desses proprietários já tiveram uma experiência positiva com a homeopatia em seus próprios tratamentos. Há também uma grande desconfiança com relação aos tratamentos convencionais em geral e aos antibióticos e corticosteróides em particular, que são associados a reações medicamentosas adversas. Essa desconfiança também existe na medicina veterinária e leva muitas pessoas a se voltarem para uma terapia alternativa suave. Tal como na medicina humana, não é raro, no caso de animais com doenças crônicas, usar-se a homeopatia como último recurso, depois que um tratamento convencional prolongado falhou em produzir qualquer melhora duradoura.

O setor de pecuária tem, igualmente, experimentado um aumento no interesse pela homeopatia. As razões desse fato diferem fundamentalmente da situação dos animais de estimação. Em conseqüência das proibições do uso de substâncias farmacologicamente ativas em animais que produzem alimentos, existem lacunas cada vez maiores no tratamento medicamentoso desses animais. Em sua busca por alternativas, os veterinários estão agora voltando-se para outras formas de tratamento, inclusive o uso de medicamentos homeopáticos. Um fator importante aqui é a crescente consciência do problema do desenvolvimento da resistência dos micróbios. Na medicina veterinária, os antibióticos mais antigos, em particular, já perderam sua eficácia e os novos estão sucumbindo ao desenvolvimento da resistência mais rapidamente do que se esperava [Trolldenier 1995]. Nos últimos dez anos, microorganismos causadores de doenças em seres humanos têm também desenvolvido resistência aos antibióticos geralmente utilizados, sendo que microorganismos hospitalares, como estafilococos, enterobactérias e micobactérias constituem um problema especial [Witte, 1998]. Casos de infecção com a Escherichia coli enterohemorrágica, que é multi-resistente, são portanto muito difíceis de tratar e têm chamado muito a atenção do público. A situação precária atual surgiu, entre outras razões, em conseqüência do uso excessivo de antibióticos na produção animal. Ao contrário do uso dos antibióticos, com a medicação homeopática, os efeitos adversos sobre o meio ambiente são desconhecidos e improváveis. Por esse motivo, estão sendo feitos esforços para obter-se uma redução no uso dos antibióticos, sendo que uma das abordagens do problema é o uso do tratamento homeopático.

Há também considerações de ordem econômica, que favorecem o uso da homeopatia na produção animal. Já que não é necessário observar um intervalo entre a aplicação dos remédios e a comercialização dos animais produtores de alimentos, as perdas financeiras podem ser evitadas.

Uma situação muito especial é a das fazendas de criação orgânica de animais. Embora esse setor não seja ainda particularmente importante em termos de quantidades produzidas, há entretanto cerca de 6.500 fazendas de criação orgânica na Alemanha. As diretrizes de várias associações de produtores consideram a terapia natural e a homeopatia como os métodos preferenciais de tratamento e uma instrução sobre o assunto está sendo redigida no momento. As fazendas, individualmente, já estão demonstrando que é possível dispensar totalmente os métodos convencionais de tratamento. Em um estudo, seis fazendas de produção de leite na Alemanha declararam que suas vacas eram tratadas exclusivamente por homeopatia [Krutzinna et al. 1996].

 

Prova de eficácia

Embora a homeopatia tenha um uso prático bastante amplo, ela ainda carece de base científica para a sua eficácia clínica na medicina veterinária. Essa base vem sendo exigida há muito tempo, tanto pelos críticos como pelos adeptos da homeopatia [Löscher 1992; Schütte 1994]. É inegável que certos medicamentos homeopáticos são realmente eficazes em animais, mas isso não representa uma prova da validade da homeopatia, em geral. Os críticos da homeopatia atribuem as taxas de sucesso principalmente aos efeitos indiretos, como os efeitos do placebo, que também podem ocorrer em animais, ou então a curas espontâneas.

Na esfera da medicina humana, a eficácia da homeopatia no tratamento de várias indicações clínicas já foi comprovada e é também apoiada por uma análise recente [Linde et al. 1997]. Na medicina veterinária, por outro lado, tem havido um pequeno número de estudos controlados sobre a eficácia da homeopatia. A grande maioria das publicações sobre medicina veterinária abrange estudos de observação e documentação de casos. Embora esses estudos possam, em princípio, ser considerados como material de fontes científicas, eles não são suficientes como prova da eficácia da homeopatia. Entretanto, a documentação de casos pode conter ainda informações importantes e de relevância prática sobre os casos individuais que são apresentados.

Entre os estudos controlados, realizados aleatoriamente na medicina veterinária, o de Wolter (1966) sobre o tratamento das contrações insuficientes nas porcas com o Caulophyllum D30 pode ser considerado como prova científica de eficácia. O experimento clínico de Seifert (1987) com o complexo de mastite-metrite-agalactação em porcas, igualmente realizado sob condições controladas, confirmou a eficácia da terapia homeopática para essa indicação. Em termos dos vários parâmetros de estudo, o tratamento homeopático foi considerado superior ao tratamento convencional padrão, embora o pequeno número de casos (64 animais) tivesse provocado algumas críticas. O estudo feito por Schütte (1991) sobre o tratamento homeopático de doenças respiratórias em porcos de engorda demonstrou, igualmente, a eficácia do tratamento homeopático. Esse estudo foi realizado dentro de um projeto extensivo, com 5 anos de duração, nas clínicas ambulatoriais da Universidade Livre de Berlim em Schwarzenbeck, investigando a aplicação clínica da homeopatia na prática veterinária [Schütte 1994]. Pode-se dizer, em resumo, que não há quase nenhuma prova científica da eficácia do tratamento homeopático na medicina veterinária e apenas umas poucas experiências controladas têm sido realizadas.

 

Experiências clínicas

A necessidade geral de experiências clínicas na homeopatia veterinária é inquestionável, tanto para aumentar a sua aceitação na ciência e na medicina, como para investigar aspectos de seu uso, que são relevantes na prática diária.

No entanto, devido à falta de aceitação de métodos alternativos de tratamento, o interesse demonstrado por universidades e instituições de pesquisa em projetos científicos sobre a homeopatia continua muito reduzido. Há, entretanto, algumas exceções. Em alguns institutos científicos, projetos sobre a terapia homeopática já têm sido realizados e alguns estão ainda a caminho [Schütte 1994; Sommer 1994; Enbergs et al. 1997].

Os veterinários que exercem a clínica estão realmente interessados em estabelecer uma base, aceita cientificamente, para a chamada "medicina baseada em provas", mas raramente têm a oportunidade de realizar estudos ou pesquisas por si próprios. A Sociedade para Medicina Veterinária Holística empenhou-se, por esse motivo, na documentação sistemática de experiências naturopáticas, pedindo a colaboração de veterinários em exercício [Kübler 1998].

O que está faltando são conceitos de estudo que sejam não só objetivos como factíveis, sob as condições da clínica veterinária em geral. Até agora, nem mesmo as autoridades alemãs, encarregadas do registro de medicamentos, estabeleceram requisitos metodológicos para estudos sobre eficácia para medicamentos homeopáticos, visando, por exemplo, ao processo de registro. Na medicina humana, os conceitos para esses estudos têm sido discutidos há muito tempo e os experimentos controlados têm sido considerados até aqui como o "padrão ouro". A dificuldade fundamental que se apresenta é adaptar a homeopatia e seu conceito individualizado de terapia ao planejamento rigorosamente estruturado de um estudo. Esse problema pode, entretanto, ser resolvido, como se tem demonstrado em vários estudos clínicos realizados com seres humanos.

Na medicina veterinária, existe também uma demanda por experimentos controlados. Além das dificuldades práticas, há algumas questões fundamentais relacionadas com a ética, como a proteção aos animais, que surgem em conexão com a realização desses experimentos. Assim, os estudos controlados com placebo só podem ser justificados em certos casos, que não envolvem risco de vida, como por exemplo distúrbios no ciclo menstrual ou problemas de comportamento. Se o estudo se realizar em uma clínica veterinária particular, surgirão outros problemas com a seleção do grupo de controle. O aumento da competição faz que poucos veterinários concordem em dar placebos a seus pacientes. Uma alternativa seria comparar os resultados dos veterinários homeopáticos com outros colegas seus, que utilizem a medicina convencional.

 

Futuros estudos de observação em medicina veterinária – apresentação de um conceito

Algumas das deficiências da documentação de casos (falta de objetividade, número reduzido de casos, ausência de grupos de controle) podem ser compensadas optando-se por futuros estudos de observação orientados para os resultados, como os que são apresentados no artigo de M.Heger. Nesses estudos, o emprego da medicação homeopática, como parte do tratamento de rotina na prática diária, está documentado numa parcela maior de pacientes. Este conceito apresenta a opção de eventualmente comparar-se os resultados do tratamento com os dos grupos de controle.

Um projeto, atualmente em estágio de planejamento, pode ser considerado como modelo e mostra que estudos de observação, orientados para os resultados, podem ser realizados como meio de se obter material de fonte científica, nas condições rotineiras da prática veterinária. O estudo do tratamento da mastite em vacas leiteiras é planejado como um estudo de observação em múltiplos centros, em colaboração com veterinários em clínicas particulares. Todas as formas clínicas de mastite deverão ser incluídas. Os animais serão tratados utilizando-se medicamentos homeopáticos pelo método unicista. O sucesso do tratamento será avaliado considerando-se a praticabilidade, a economia e a segurança.

As considerações gerais que se seguem aplicam-se ao planejamento e à realização de estudos de observação em geral. Em primeiro lugar, um protocolo detalhado deverá ser redigido, estabelecendo a espécie animal a ser observada, o número de casos, os critérios de inclusão e exclusão, as investigações de controle, a duração do período de observação etc.

Os proprietários dos animais devem ser informados sobre o estudo e devem dar seu consentimento para a participação de seus animais. Em comparação com estudos clínicos em seres humanos, deve-se esperar uma taxa mais alta de desistências e uma menor obediência às regras estabelecidas, principalmente se as doenças melhorarem ou se resolverem totalmente. Como os próprios proprietários devem arcar com as despesas do tratamento, assim como por razões de tempo e conveniência, a experiência sugere que os proprietários não terão grande interesse em consultas posteriores ao veterinário, apenas para um checkup. Entretanto, para assegurar que esses assuntos também sejam incluídos na avaliação do estudo, os proprietários receberão uma declaração e uma justificação, em caso de abandono do tratamento. Existe também a possibilidade de um acompanhamento pelo telefone.

Os animais primeiro passarão por um exame geral e todos os testes especiais que sejam necessários e em seguida será feito um diagnóstico clínico. Será então tomada uma decisão com base no diagnóstico sobre a inclusão ou não do animal no estudo. A seguir, será feito um exame de inclusão, em que os dados clínicos e o estado de saúde atual do animal serão documentados. A anamnese homeopática será documentada num formulário padronizado, que deverá indicar claramente as razões que determinaram a escolha do medicamento selecionado. Na medicina veterinária é muitas vezes difícil ou impossível fazer a escolha do medicamento de acordo com os princípios homeopáticos clássicos, se, por exemplo, houver muito poucas informações sobre o animal, não houver sintomas definidos ou se o tempo exigido para uma completa anamnese homeopática for muito longo (ex: no tratamento de um rebanho inteiro).

 

 

Exame Clínico

6

Anamnese Homeopática

6

Homeopatia Clínica       Organotrópica     Indicação Comprovada      Miasmática      Outras

Medicina Homeopática

Fig. 1: Diversos métodos de escolha do medicamento em medicina veterinária.

 

 

 

Na medicina veterinária, portanto, é muitas vezes necessário basear a escolha do medicamento em outros métodos (Figura 1). Em casos em que o quadro clínico é por demais inespecífico, uma possibilidade é utilizar uma combinação fixa de diversos medicamentos homeopáticos. Entretanto, em princípio, o veterinário pode escolher livremente o tratamento.

Nos exames de controle, o curso do tratamento é monitorado, documentando-se em cada caso os resultados clínicos, sendo o resultado do tratamento avaliado tanto pelo veterinário quanto pelo proprietário. Esses parâmetros são quantificados atribuindo-se pontos. Além disso, critérios de resultados predeterminados podem ser documentados, questionando-se o proprietário, por exemplo, sobre a atividade física e o bem-estar do animal, o consumo de alimentos, o comportamento social etc. O proprietário também será interrogado sobre a observância do tratamento e o uso de medidas de apoio e outros medicamentos. A coleta de dados e o monitoramento do estudo devem ser empreendidos por uma entidade independente.

 

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REF: Traduzido da revista HOMINT R&D Newsletter – 2/1998, p.19/22.

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Criada em 1999. Revisado: dezembro, 2017.

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